Para quem vai o melhor?

Nestes tempos em que a comoção pelas atrocidades cometidas contra os animais, começando com o caso do cão Orelha, mas que, infelizmente, vem se alastrando sabe-se lá desde quando.

O que será que passa na cabeça de uma pessoa, em especial jovens, que se deliciam com o sofrimento de outros seres? Claro que Freud tem uma explicação para tais fatos, é o nosso cérebro reptiliano, aquele primitivo que nos acompanha desde o nascimento e também é inerente a todos os animais e que nos permite, perante o perigo, lutar, correr, ou se fingir de morto.

Ao crescermos vamos desenvolvendo o sistema límbico (das emoções e sentimentos) e do neocórtex (nossas funções cognitivas).

Voltando a Freud, todos nascemos com o Id que é a busca do prazer imediato, não importando os meios, daí, através do superego – leia-se religião, sociedade, educação – forma-se o ego, que é o moralista da estória e que tenta colocar o equilíbrio entre eles. O exemplo mais claro disto é quando você está parado no semáforo, com sinal vermelho: o Id manda você passar, o superego alerta para o perigo e a penalização, e o ego toma a decisão. Aí entram todos os fatores de nossa criação, a exemplo dos quatro jovens do caso Orelha. Nem sempre o poder aquisitivo dá a melhor formação.

Outro ponto importante a ser considerado é que, talvez, nem todos compactuaram da ação monstruosa naquele momento, mas, o grupo, sempre vence. Esta explicação de forma alguma os exime da culpa das atrocidades cometidas.

Acompanhando todos estes acontecimentos, lembrei-me de um conto que li no livro de José Orlando Nussi, contando um pouco do outro lado da história: “Conta que existia um velho mendigo, que vivia perambulando pelas ruas da cidade e sempre acompanhado pelo seu fiel escudeiro, um vira-lata rajado que atendia pelo nome de Malhado. O velho mendigo não pedia dinheiro, mas sempre algo para comer, como um pedaço de pão, uma banana, ou o que seja. Quando suas roupas estavam imprestáveis, logo era socorrido por alguma alma caridosa. Ele era conhecido como um homem bom e que, apesar do infortúnio, vivia alegre e sempre fazendo brincadeiras. Não ingeria bebidas alcoólicas, estava sempre tranquilo, mesmo quando não recebia nenhum prato de comida. Sempre dizia que Deus lhe daria na hora certa e sempre na hora que Ele determinasse, e assim acontecia; sempre que alguém lhe estendia um prato de comida, pelo qual ele agradecia, repartia com o Malhado e rogava a Deus pela pessoa que o ajudara. O mendigo não tinha onde dormir, levava uma vida vegetativa, sem esperança e sem um futuro promissor.

Certo dia um cidadão, com a desculpa de oferecer-lhe umas bananas, foi conversar com ele, iniciando a conversa perguntando sobre o Malhado, qual a idade etc, o que ele respondeu que não sabia, porque se encontraram num certo dia, quando ambos andavam pelas ruas. Então disse: – Nossa amizade começou com um pedaço de pão. Ele parecia faminto e eu lhe ofereci um pouco de meu almoço e ele agradeceu abanando o rabo, e dai, não me largou mais. Ele me ajuda muito e eu retribuo essa ajuda sempre que posso.
Continuando a conversa, o cidadão perguntou: – você tem algum desejo de vida? – Tenho sim -, respondeu o mendigo -, tenho vontade de comer um cachorro quente, daqueles que o Zezé vende ali na esquina.
-Só isso?
-Sim, no momento é o que desejo.
– Ok, então vou satisfazer a sua vontade, disse o cidadão.

E, assim dito, saiu e comprou um apetitoso hot-dog para o velhinho, o qual arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu pela dádiva e, em seguida tirou a salsicha e deu para o Malhado, e comeu o pão com o tempero.

Não entendendo aquele gesto do mendigo, pois imaginava ser a salsicha o melhor pedaço, perguntou o porquê ele dera a salsicha para o cachorro. Ele, com a boca cheia, respondeu: -Para o melhor amigo, o melhor pedaço, e continuou comendo alegre e satisfeito.

Acreditem, deve existir alguma boa razão para que todos os pedintes que vejo, terem um cachorro do lado. Só quem tem um cão, pode avaliar uma amizade.

(Dedico este editorial à minha falecida cachorra e eterna amiga, Perla)
Claudinei Luiz

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