To do… or not to do ?
Para quem me acompanhou neste final de ano, sabe que tive que tomar uma decisão com custo emocional bem elevado. A tradução da frase acima é bem simples: fazer ou não fazer? Alguns dias antes do Natal fui acometido novamente por uma arritmia que parece ter partido do nada, sem nenhum sintoma ou mal-estar. Falei com o meu médico e ele foi categórico que a única forma de cura seria fazer uma nova ablação, procedimento que já havia me submetido há aproximadamente dois anos. A ablação, rapidamente explicada, é um procedimento cirúrgico, pouco invasivo, e similar ao cateterismo (mas feito com anestesia geral) ou seja, cateteres inseridos pela virilha detectam os sinais elétricos responsáveis pela arritmia e os cauterizam.
– Poxa, Claudinei, agora você virou médico também!!
– Claro que não, meu amigo leitor, mas confesso que gostaria, é um trabalho nobre. O meu problema, por ser assintomático, era fazer o procedimento, ou tentar um tratamento medicamentoso, com pouca ou nenhuma chance de sucesso, contudo, sem passar por processo cirúrgico o qual na minha idade sempre traz preocupações.
Pois bem, tinha uma decisão a tomar, o sim e o não tomaram conta da minha mente desde a véspera do Natal até no domingo dia 28 de dezembro, quando meu cérebro escolheu a opção sim. No dia 29, às 5h da manhã me internei e ao meio-dia já estava em recuperação na UTI do hospital Brasil, após um ótimo procedimento comandado pelo Dr. Muhiedinne Chokr e sua equipe, a qual aqui agradeço, bem como, ao corpo de enfermagem. Acredite, naquele momento foi a melhor escolha que meu cérebro dispunha e foi acertadamente.
Por falar em decisões, e aproveitando este início de ano, como andam aquelas que você se comprometeu a realizar na virada do ano, tais como, fazer academia, iniciar novos cursos, mudar hábitos alimentares entre outras? Pois bem, não desanima se não fez nada, a estatística mostra que você se encontra em um universo de 90 % dos que não cumprem e que menos de 10% alcançam ou tentam alcançar a meta estabelecida.
Este parece ser o eterno problema que enfrentamos no nosso dia a dia; afinal, decidir o que escrever neste editorial já foi uma árdua tarefa, pois a cada edição minha responsabilidade aumenta, haja vista, a repercussão que meus artigos atingem junto aos nossos leitores, aos quais sou eternamente grato. Então, vamos falar um pouco sobre a arte de decidir.
A indecisão é a pior forma de decisão e assim escolhemos a zona de conforto, pois é muito bom não precisar decidir nada, escolher nada. Contudo, a verdade é que somos levados a tomar decisões o tempo todo, sejam elas pequenas ou grandes. Que roupa colocar, que contas pagar, em quem votar, quem leva as crianças etc, etc. Enfim, a vida sempre nos cobra um status, uma escolha ou uma saída. O não escolher já é uma escolha.
Às vezes a nossa escolha não é a melhor e, dependendo do seu resultado, pode nos levar até a um processo de depressão. É muito comum o arrependimento póstumo e a pessoa se penalizar pelo resto da vida pela decisão errada que foi tomada no passado.
Todos estamos sujeitos a instabilidades em nossas vidas, um marinheiro sabe que a melhor forma de navegar é quando o oceano está tranquilo, mas ele também está sujeito às instabilidades do clima, tempestades e, para enfrentar, antes de tudo tem que confiar na sua embarcação e, decididamente, sem medo de enfrentar o mar aberto.
Às vezes é melhor buscar um porto seguro e esperar a tormenta passar; contudo, é bom lembrar que o porto é apenas um refúgio momentâneo, mesmo porque os barcos foram feitos para navegar, feitos para o oceano e não para os portos.
Aproveito para relatar outro caso verídico e que nos trouxe muito aprendizado. Minha esposa e eu adoramos fazer cruzeiros, e já podemos contabilizar mais de duas dezenas realizados e, pasmem, todos com o mar parecendo um tapete, com exceção de um. Vindo da Argentina e ao sair do Rio da Prata, navegando em águas do Uruguai – onde o mar já é extremamente batido -, enfrentamos uma tempestade devido a um ciclone que se formou no sul do Brasil, fazendo com que o imenso navio parecesse um barquinho, sacudindo o tempo todo, o que levou os passageiros a se agrupar no Atrium (centro do navio), onde o equilíbrio é melhor.
Após mais de um dia nestas condições o capitão informou que faria uma parada em um porto próximo, pelo qual foi imensamente aplaudido, achando que estaríamos mais seguros ancorados no porto. Puro engano, a alegria durou pouco. Logo em seguida ele zarpou novamente, a parada foi apenas para desembarcar um tripulante que estava doente. Questionado novamente, o capitão respondeu com uma simples frase que me ensinou muito: não tenham medo, o navio foi construído para navegar e não ficar nos portos. E a tempestade continuou por mais uma noite. Só que agora bem mais confortável. Que lição.
Concluindo, amigo leitor, esta lição vem elucidar que temos que enfrentar os desafios que a vida nos apresenta, pois se não entrarmos no oceano, não vivemos, não aprendemos, não navegamos e não conhecemos outras terras.
A boa notícia, principalmente para você que ainda se culpa por alguma decisão má tomada, a neurociência explica que o nosso cérebro trabalha com um sistema binário, ou seja, sim ou não, e para ele não existe certo ou errado. Isto significa que naquele momento da decisão foi a melhor escolha que se apresentou a ele.
Então, meu amigo relaxe, que a culpa não é sua, mas lembre-se que você muda o seu destino a cada decisão que você toma.
Voltando ao meu caso do hospital, perguntei a um outro médico e amigo se devia fazer ou não o procedimento cirúrgico e após os prós e contras, a resposta foi taxativa: a decisão é somente sua.
Forte abraço e boas decisões.
Claudinei Luiz
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